Estratégia em tempos de caos: imaginando os futuros da educação

Veja como educação e estratégia precisam evoluir para um mundo de instabilidade, preparando pessoas e instituições para múltiplos futuros.

Foto de SXSW 2026

Por SXSW 2026

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12 de Março de 2026

Leitura de 5 min

A palestra de Lyn Jeffery, do Institute for the Future, e Maisha T. Winn, no SXSW 2026, parte de uma provocação clara: o sistema educacional foi desenhado para um mundo que já não existe. Em um cenário marcado por transformações aceleradas, impulsionadas por inteligência artificial, mudanças climáticas, desigualdades estruturais e novas formas de trabalho, a lógica tradicional da estratégia começa a perder eficácia. Em vez de tentar prever um futuro linear e controlável, o desafio passa a ser preparar pessoas e instituições para navegar múltiplos futuros possíveis.

Índice:

Vivemos em uma era de “permacrise”

Um dos conceitos centrais da palestra é o de permacrise, um estado contínuo de instabilidade em que rupturas deixam de ser eventos isolados e passam a compor o próprio ambiente em que organizações e indivíduos operam. Nesse contexto, a estratégia não pode mais se basear na tentativa de antecipar exatamente o que vai acontecer. O papel estratégico passa a ser desenvolver capacidade adaptativa, resiliência e prontidão para diferentes cenários.

A frase apresentada por Lyn Jeffery resume bem essa mudança de mentalidade: “Strategy is no longer prediction. Strategy is preparation.” A função da estratégia, portanto, deixa de ser a previsão do futuro e passa a ser a construção de sistemas capazes de continuar funcionando mesmo quando o ambiente muda rapidamente.

O passado revela as tensões do presente

Imaginar o futuro não começa apenas olhando para frente. Lyn Jeffery destaca que o pensamento do futuro exige também um olhar cuidadoso para o passado, pois é nele que aparecem os ciclos históricos e as tensões estruturais que moldaram o presente. Esse olhar ajuda a identificar aquilo que o Institute for the Future chama de “zombie ideas”: ideias que já deveriam ter desaparecido diante das evidências, mas continuam organizando decisões e políticas.

Na educação superior, um exemplo claro é a crença de que mais diplomas automaticamente levam a mais prosperidade econômica. Embora a educação continue associada a benefícios sociais importantes, como maior participação cívica e maior expectativa de vida, essa relação direta com mobilidade econômica já não funciona da mesma maneira que no passado. Ainda assim, muitas instituições continuam operando como se essa promessa permanecesse intacta.

Um sistema educacional criado para estabilidade

A crítica central apresentada na palestra é que o sistema educacional ainda prepara pessoas para um mundo relativamente estável, baseado em respostas corretas, trajetórias previsíveis e estruturas institucionais rígidas. No entanto, o futuro exige um conjunto diferente de capacidades. Em vez de apenas dominar conteúdos, será cada vez mais importante saber formular boas perguntas, lidar com ambiguidade, colaborar com diferentes perspectivas e aprender continuamente.

Nesse cenário, o valor da educação deixa de estar apenas na transmissão de conhecimento técnico e passa a se concentrar no desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e emocionais que permitam às pessoas navegar por um ambiente incerto e em constante transformação.

Imaginar múltiplos futuros como prática estratégica

“futures thinking” apresentado por Lyn Jeffery é menos uma previsão e mais um método de exploração. Ele envolve observar padrões históricos, identificar sinais fracos de mudança nas bordas do sistema e acompanhar experimentos emergentes que indicam possíveis transformações. Esses sinais são então agrupados em narrativas que ajudam a construir cenários plausíveis de futuro.

O objetivo não é acertar qual cenário vai acontecer, mas ampliar a capacidade de decisão no presente. Quanto mais futuros possíveis conseguimos imaginar, mais preparados ficamos para lidar com qualquer um deles. No campo da educação, esses cenários incluem desde universidades profundamente integradas à inteligência artificial até modelos de aprendizagem centrados na colaboração entre humanos e máquinas e no fortalecimento de habilidades que a tecnologia dificilmente substitui, como julgamento humano, pertencimento e construção de sentido coletivo.

Equidade como elemento central do futuro

A contribuição de Maisha T. Winn acrescenta uma dimensão fundamental à conversa: não existe estratégia de futuro sem equidade. Ao trazer exemplos de comunidades negras e movimentos educacionais autônomos, ela argumenta que grupos historicamente marginalizados já precisaram desenvolver, ao longo do tempo, capacidades de improvisação, adaptação e imaginação coletiva para sobreviver em contextos de exclusão.

Essas experiências revelam que inovação não está apenas em novas tecnologias, mas também em formas históricas de organização, memória e resistência. Pensar o futuro, portanto, exige reconhecer essas inteligências coletivas e incorporar perspectivas que tradicionalmente ficaram à margem das instituições formais.

Reimaginar em vez de apenas reagir

Em contextos de crise constante, organizações tendem a operar de maneira reativa, respondendo às pressões imediatas do ambiente. Maisha Winn sugere que os sistemas mais resilientes são aqueles que conseguem fazer algo além disso: reimaginar e construir novas possibilidades enquanto atravessam o caos.

Isso envolve trabalhar com intencionalidade, documentar o que está sendo criado, fortalecer comunidades e promover colaboração entre diferentes gerações. A estratégia deixa de ser apenas um exercício técnico e passa a assumir também uma dimensão social e cultural, baseada em relações, memória e construção coletiva.

Implicações para o futuro do trabalho

Os argumentos apresentados na palestra também dialogam diretamente com as transformações do mundo do trabalho. Se vivemos em um cenário de instabilidade estrutural, organizações precisam garantir bases mínimas de estabilidade na vida cotidiana das pessoas. Nesse contexto, benefícios corporativos deixam de ser apenas uma política de recursos humanos e passam a funcionar como infraestrutura de resiliência organizacional.

Isso acontece porque muitos sistemas de benefícios foram concebidos em um contexto muito diferente do atual, marcado por trabalho presencial, rotinas padronizadas e menor flexibilidade. O trabalho contemporâneo, por outro lado, é híbrido, distribuído e altamente digital, exigindo modelos de suporte mais conectados à realidade das pessoas e aos novos hábitos de consumo e mobilidade.

Insight final

O principal aprendizado da palestra é que estratégia hoje não significa prever o futuro, mas construir sistemas capazes de continuar funcionando quando o futuro muda. Na educação, isso implica preparar pessoas para ambiguidade, colaboração e reinvenção constante. No mundo do trabalho, significa desenvolver estruturas de suporte mais humanas, flexíveis e alinhadas às condições reais da vida contemporânea.

 

 

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