Por que seguimos líderes narcisistas? Insights de Brené Brown e Adam Grant no SXSW 2026

Por que o modelo atual de trabalho gera frustração e como um sistema baseado em habilidades pode reinventar as organizações.

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16 de Março de 2026
Leitura de 6 min
Para muitas pessoas, trabalhar hoje parece como caminhar através de lama e neblina ao mesmo tempo. Há resistência em todos os lados: processos burocráticos, decisões confusas, prioridades contraditórias e ambientes que parecem exigir esforço constante apenas para manter as coisas funcionando.
Às vezes sabemos exatamente o que está nos impedindo de avançar. Outras vezes, tudo parece opaco, como se o problema existisse, mas ninguém estivesse disposto a reconhecê-lo. Essa sensação não é individual e, por isso, virou o tema de um dos painéis do SXSW 2026.
Estudos globais mostram que milhões de trabalhadores estão cada vez mais desconectados do trabalho. Em muitos países, uma parcela significativa da população relata desengajamento profissional, com impactos diretos na saúde mental, produtividade e bem-estar.
A questão central não é apenas “trabalho ruim”. O problema pode estar no próprio sistema que define como o trabalho é organizado.
Índice:
Mesmo quando o trabalho é frustrante ou desgastante, a maioria das pessoas continua nele. Não necessariamente por paixão ou propósito, mas porque precisamos sobreviver. Pagamentos, benefícios e estabilidade criam um ciclo difícil de romper. O resultado é que muitos trabalhadores acabam vivendo uma relação paradoxal com o trabalho:
Esse paradoxo gera uma sensação comum: “algo está errado, mas ninguém está disposto a mudar.”
Para entender por que o trabalho funciona dessa maneira, precisamos olhar para o passado. O modelo tradicional de emprego foi construído em torno de três elementos principais: títulos de cargo, hierarquias rígidas e descrições fixas de funções.
Esses elementos criaram uma estrutura organizacional relativamente simples:
Esse modelo foi eficaz durante décadas, especialmente em economias industriais. Mas no mundo atual, marcado por tecnologia, mudanças rápidas e colaboração global, ele começa a mostrar limites.
Uma das críticas mais fortes ao modelo tradicional é que ele confunde títulos com trabalho real. Por exemplo: duas pessoas podem ter exatamente o mesmo cargo e a mesma descrição de função, mas realizar atividades completamente diferentes no dia a dia.
O que realmente define o trabalho não é o título. São três elementos:
Esses fatores são muito mais relevantes do que organogramas ou descrições de cargos padronizadas. No entanto, o sistema corporativo raramente organiza o trabalho dessa forma.
Quando o sistema recompensa títulos e poder hierárquico, as pessoas começam a se proteger dentro dele. Isso explica muitos comportamentos comuns no ambiente corporativo. Entre eles:
Funcionários e líderes defendem projetos, áreas ou informações como se fossem propriedade pessoal.
Equipes tentam controlar recursos ou decisões para manter relevância dentro da organização.
Conhecimento é tratado como vantagem competitiva individual.
Algumas pessoas parecem extremamente ocupadas, mas o impacto real do trabalho é limitado.
Esses comportamentos não surgem apenas por ego ou personalidade. Eles são estratégias de sobrevivência dentro do sistema existente.
É comum culpar indivíduos pelo ambiente de trabalho tóxico. Mas muitas vezes o problema não está apenas nas pessoas. Está no sistema que incentiva certos comportamentos.
Quando recompensas e reconhecimento estão ligados a status ou visibilidade, pessoas naturalmente adaptam suas ações para sobreviver nesse contexto. Em outras palavras: o sistema molda o comportamento.
Hoje, um dos maiores sinais de que o modelo atual está falhando é o crescimento do desengajamento profissional. Esse fenômeno se manifesta de várias formas, como baixa motivação, perda de propósito, exaustão constante ansiedade relacionada ao trabalho.
Além do impacto individual, isso gera consequências econômicas enormes, incluindo perda de produtividade e aumento de problemas de saúde mental. Para muitos profissionais, o trabalho deixou de ser uma fonte de realização e se tornou apenas uma obrigação necessária.
Uma alternativa proposta por especialistas em inovação organizacional é reorganizar o trabalho em torno de tarefas, não de cargos. Em vez de começar com títulos hierárquicos, empresas poderiam mapear:
Essas atividades formariam um “inventário de trabalho” dentro da organização. A partir desse inventário, seria possível conectar pessoas às tarefas em que realmente têm mais impacto.
Nesse modelo alternativo, a estrutura organizacional mudaria significativamente. Em vez de perguntar: “Qual cargo você ocupa?” a pergunta principal seria: “Quais habilidades você pode aplicar aqui?”.
Isso criaria algumas vantagens importantes:
Dessa forma, profissionais seriam reconhecidos principalmente por suas competências e contribuições reais.
Outro ponto importante é repensar como recompensamos o trabalho. Hoje, muitos sistemas de incentivo são desconectados da realidade das tarefas.
Por exemplo:
Em um modelo mais eficiente, incentivos poderiam incluir:
Quando as recompensas estão alinhadas com os resultados desejados, o comportamento organizacional tende a mudar.
Um dos grandes problemas nas organizações é o trabalho invisível. Muitas atividades essenciais não aparecem em relatórios ou avaliações de desempenho. Entre elas mentoring de colegas, compartilhamento de conhecimento, resolução de conflitos e melhoria de processos internos.
Quando essas atividades não são reconhecidas, elas deixam de ser incentivadas. Isso cria ambientes onde apenas tarefas visíveis ou politicamente vantajosas recebem atenção.
O modelo atual de contratação também apresenta limitações. Entrevistas frequentemente avaliam habilidades específicas ou experiências passadas de forma limitada. Isso pode excluir profissionais que possuem talento real, mas não se encaixam no formato tradicional de seleção.
Em um sistema baseado em habilidades e tarefas, o recrutamento poderia focar mais em capacidades práticas, experiências reais e potencial de aprendizado. Esse modelo também permitiria trajetórias profissionais mais flexíveis.
Embora o sistema atual ainda domine a maioria das organizações, sinais de mudança já estão surgindo. Empresas estão experimentando novos modelos de trabalho que incluem:
Essas experiências mostram que existem alternativas viáveis para o modelo tradicional.
Se o trabalho moderno parece frustrante para muitas pessoas, isso não significa necessariamente que elas estejam falhando. Muitas vezes, o problema é o sistema em que estão inseridas.
Estruturas organizacionais baseadas em títulos rígidos, incentivos desalinhados e hierarquias inflexíveis podem criar ambientes onde política e sobrevivência substituem colaboração e impacto real.
Repensar o trabalho exige mais do que programas de bem-estar ou mudanças superficiais. Exige uma transformação mais profunda: reorganizar o trabalho em torno das tarefas, habilidades e resultados que realmente importam.
E talvez o primeiro passo para essa mudança seja reconhecer uma verdade simples: se o sistema não funciona para as pessoas, talvez seja o sistema, e não as pessoas, que precisa mudar.
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