Fim da Gerência Média?

Se a IA assumiu o tático e a camada sumiu, o que ainda justifica sua liderança?

Um dos maiores especialistas em Remuneração e Benefícios do Brasil, com mais de 20 anos de experiência em liderança de RH, Operações e People Analytics em gigantes como IBM, XP Inc. e OLX. Co-fundador da Comp.
15 de Janeiro de 2026
Leitura de 4 min
Se a IA já assumiu o tático, se o software virou gerente de processo,e se o organograma encolheu, o que exatamente sobra para a liderança fazer?
Durante décadas, a gerência média foi treinada para intermediar: consolidar status, repassar decisões, cobrar prazo e aprovar por reflexo. Esse modelo funcionava em estruturas altas, lentas e previsíveis.
Ele não funciona mais, não por ideologia, mas sim por matemática, tecnologia e custo de oportunidade. Quando o “meio” do organograma some, não sobra espaço para liderança ornamental. Sobra apenas impacto e impacto exige novos músculos.
Índice:
O achatamento organizacional não significa menos liderança, significa menos tolerância a lideranças unidimensionais.
Aquelas que:
O que cresce nesse novo desenho é um perfil raro: lideranças e colaboradores com skills híbridos.
Não generalistas.
Não “faz tudo”.
Mas profissionais capazes de integrar profundidade técnica, leitura de negócio e julgamento humano no mesmo corpo.
Durante anos, “trabalho híbrido” foi sinônimo de casa ou escritório.
Esse debate ficou pequeno. Hoje, híbrido significa parceria humano–máquina.
A IA assume automação, síntese, correlação e padrão. O humano permanece onde a máquina não chega: julgamento, contexto, ética e decisão.
A IA reduz latência.
Não reduz responsabilidade.
Delegar decisão para o algoritmo é um conforto disfarçado de modernidade.
Com menos camadas, a liderança deixa de ser posição e passa a ser função real. Alguns músculos se tornam inegociáveis.
Não é saber “o que é IA”, mas saber onde confiar e onde desconfiar. A IA sinaliza, o humano decide. A consequência nunca é da máquina.
Com menos escalonamento, decisões são mais frequentes, mais expostas e mais próximas do impacto financeiro. Esperar o dado perfeito virou luxo.
Em organizações mais flat, comunicação não serve para alinhar. Serve para decidir. Onde ela falha, surgem micro gestões invisíveis.
Com a base menor, errar na formação custa caro. O líder precisa desenvolver pessoas em ritmo de negócio, não terceirizar isso para depois.
Menos estrutura significa mais pressão e mais exposição. Não é motivação, é maturidade para decidir sob ambiguidade.
O impacto não atinge apenas quem “tem time”.
O colaborador do futuro também precisa hibridizar:
Quem só executa bem, mas não entende o porquê, vira plugável.
Quem conecta execução a decisão vira referência.
A IA não substitui quem executa.
Substitui quem não entende impacto.
Skills híbridos não nascem de trilhas genéricas, treinamentos isolados ou job rotations cosméticos.
Eles exigem:
Sem consequência estrutural, skill vira discurso bonito.
O flattening não elimina líderes, elimina desculpas estruturais.
Quando a IA assume o tático e as camadas somem, o que sobra é o essencial: julgamento, formação e decisão.
O resto vira software.
Na era da IA, quem só carrega tijolo vira commodity.
O que permanece escasso é quem entende a estrutura, assume o risco e decide onde o prédio pode — ou não — subir.
A pergunta não é se sua empresa está mais flat. É se suas pessoas estão mais fortes.
Para tornar isso concreto, pense em um padrão que tenho visto se repetir.
Uma empresa de tecnologia decidiu reduzir uma camada de gerência intermediária e, deliberadamente, não repôs as pessoas. Não foi uma decisão de eficiência apenas, foi uma decisão cultural.
O recado foi claro: menos aprovação, mais responsabilidade.
Menos intermediação, mais decisão, agora assistida por dados e IA, mas assumida por humanos.
O impacto apareceu rápido, não porque a tecnologia era melhor, mas porque a cultura mudou.
Líderes que antes organizavam fluxo e protegiam agenda passaram a ter que escolher trade-offs. Especialistas que antes só executavam passaram a explicar impacto e sustentar decisão.
Nem todos conseguiram.
Alguns gestores simplesmente não se adaptaram e saíram, não por falta de competência técnica, mas por falta de conforto com exposição, ambiguidade e consequência.
Outros cresceram rápido, não porque ganharam mais gente abaixo,mas porque aceitaram carregar mais julgamento, mais contexto e mais responsabilidade real.
A estrutura ficou menor, o discurso de liderança, mais curto e a régua cultural, brutalmente mais alta.







