Inteligência artificial na educação: como preparar jovens para aprender e prosperar em um mundo dominado por IA

Por que sentir que importamos é essencial para conexão, propósito e engajamento em um mundo cada vez mais tecnológico e solitário.

Acompanhe a cobertura de um dos principais encontros globais de inovação, criatividade e cultura do mundo e confira os insights do evento
12 de Março de 2026
Leitura de 6 min
Vivemos uma das maiores ondas de inovação da história. Inteligência artificial, automação e novas tecnologias estão transformando a forma como trabalhamos, aprendemos e nos conectamos. Ainda assim, ao mesmo tempo em que avançamos rumo ao futuro, cresce uma curiosa nostalgia coletiva pelo passado.
Discos de vinil voltaram a vender mais. Telefones fixos reaparecem em casas. Restaurantes recriam ambientes dos anos 90. E pessoas percorrem quilômetros para reviver experiências que pareciam esquecidas.
Mas o que realmente estamos tentando recuperar?
Segundo a jornalista e autora Jennifer B. Wallace, presente no painel da SXSW 2026, a resposta não está nos objetos, e sim no sentimento de pertencimento que fazia parte do cotidiano. Aquela sensação de ser reconhecido, valorizado e necessário para os outros.
Esse sentimento tem nome na psicologia: mattering.
Índice:
Mattering pode ser traduzido como a sensação de que você importa para os outros e faz diferença no mundo ao seu redor.
De acordo com pesquisadores, esse sentimento envolve duas dimensões fundamentais:
Essa necessidade é profundamente humana. Ao longo da evolução, fazer parte de um grupo significava proteção e sobrevivência. Ser excluído, por outro lado, representava risco extremo.
Por isso, ainda hoje, nossa mente reage intensamente quando sentimos que somos invisíveis ou irrelevantes.
Quando sentimos que importamos:
Quando sentimos que não importamos, as consequências podem ser sérias. Ansiedade, isolamento, desmotivação e até depressão podem surgir desse sentimento de invisibilidade.
E esse problema pode se tornar ainda maior no futuro.
Com líderes de tecnologia prevendo um cenário em que máquinas realizarão muitas das tarefas humanas, surge uma nova pergunta social e psicológica:
Como garantir que as pessoas continuem sentindo que têm valor em um mundo altamente automatizado?
Pesquisas mostram que o sentimento de mattering pode ser fortalecido por quatro elementos principais.
Esses pilares ajudam a explicar como construímos conexões humanas profundas.
O primeiro elemento é a significância: sentir que somos conhecidos e valorizados por quem realmente somos.
Curiosamente, quando as pessoas lembram momentos em que sentiram que importavam, elas raramente citam grandes eventos como promoções ou prêmios.
Na maioria das vezes, o sentimento surge em pequenos gestos cotidianos:
São nesses momentos que percebemos algo poderoso: importar não está nos grandes marcos da vida, mas nos pequenos detalhes do dia a dia.
Outro componente essencial do mattering é a apreciação.
Não basta fazer algo importante, precisamos saber que aquilo realmente impacta alguém.
Isso é particularmente visível no ambiente de trabalho.
Pesquisas da Gallup mostram que cerca de 70% dos trabalhadores se sentem desengajados no trabalho. Muitas vezes, isso não acontece por falta de esforço ou dedicação, mas porque as pessoas não conseguem enxergar o impacto do que fazem.
Quando esse vínculo desaparece, o esforço perde sentido. Por outro lado, ambientes que demonstram reconhecimento criam culturas de trabalho muito mais fortes. Funcionários que se sentem valorizados tendem a:
Em outras palavras, criar uma cultura onde as pessoas importam não é apenas um gesto humano, é também uma estratégia de negócios inteligente.
O terceiro elemento do mattering é sentir que alguém está ao seu lado, torcendo por você. Na metáfora do boxe, essa pessoa seria o corner man, o treinador que fica no canto do ringue, apoiando o lutador e lembrando-o de que ele é capaz de continuar.
Todos precisamos de pessoas assim em nossas vidas. Mentores, amigos, professores, colegas ou familiares que:
Quando alguém investe em nós dessa maneira, algo interessante acontece: o sucesso dessa pessoa passa a ser sentido como um sucesso compartilhado. Psicólogos chamam esse fenômeno de extensão do ego: quando passamos a sentir orgulho das conquistas de quem ajudamos a crescer.
O quarto pilar do mattering é a sensação de ser necessário.
Durante muito tempo, comunidades funcionaram com alto grau de interdependência. Vizinhos ajudavam uns aos outros, amigos cuidavam de tarefas simples e relações eram fortalecidas pela troca constante de apoio.
Hoje, porém, muitos desses pequenos gestos foram substituídos por serviços e aplicativos. A conveniência trouxe eficiência, mas também reduziu oportunidades de conexão humana.
Pedir ajuda, oferecer ajuda ou depender de alguém são gestos aparentemente simples, mas são justamente esses momentos que fortalecem vínculos e criam comunidades mais resilientes.
Se sentir que importa é poderoso, o oposto também tem um nome na psicologia: antimattering.
Esse termo descreve a experiência de ser ignorado, descartado ou tratado como irrelevante.
Isso pode acontecer em situações aparentemente pequenas:
Essas experiências enviam uma mensagem silenciosa, mas muito clara: “você não importa aqui”. E quando muitas pessoas acumulam esse sentimento, os efeitos podem aparecer em forma de:
A boa notícia é que fortalecer o sentimento de mattering não exige grandes mudanças estruturais.
Pequenas atitudes podem gerar impactos profundos:
Uma prática simples sugerida pela autora é fazer duas perguntas todos os dias:
Esse exercício ajuda a treinar a mente a reconhecer evidências de significado no cotidiano.
Talvez a ideia mais poderosa da palestra seja imaginar que todas as pessoas que encontramos carregam uma pergunta invisível.
Uma pergunta silenciosa que diz:
“Eu importo?”
Cada interação cotidiana, no trabalho, em casa, na escola ou na comunidade, é uma oportunidade de responder essa pergunta.
Com atenção.
Com reconhecimento.
Com humanidade.
Porque toda vez que ajudamos alguém a sentir que importa, algo surpreendente acontece: também nos lembramos de que nós importamos.








