Por que sentir que “importamos” é essencial: o conceito de mattering no trabalho, na educação e na vida

Como preparar jovens para aprender, pensar criticamente e se desenvolver em um mundo cada vez mais impactado pela inteligência artificial.

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12 de Março de 2026
Leitura de 7 min
A inteligência artificial generativa chegou às escolas antes mesmo de educadores e sistemas educacionais estarem prontos para ela. Ferramentas como chatbots e assistentes digitais já fazem parte do cotidiano de estudantes, muitas vezes usadas para estudar, tirar dúvidas ou até fazer tarefas escolares.
Diante desse cenário, a pergunta mais importante já não é se a IA deve ou não ser usada na educação, mas sim outra:
Como garantir que a inteligência artificial fortaleça, e não enfraqueça, a capacidade dos jovens de pensar, aprender e se relacionar?
Essa foi a questão central debatida em um painel do SXSW 2026 baseado no relatório da Brookings Institution A New Direction for Students in an AI World: Prosper, Prepare, Protect. O estudo analisou pesquisas em mais de 50 países, consultou centenas de estudos e ouviu estudantes, pais, professores e especialistas em tecnologia para entender o impacto da IA no desenvolvimento dos jovens.
O resultado mostra um cenário complexo: a inteligência artificial traz oportunidades extraordinárias para a educação, mas também riscos significativos para aprendizagem, criatividade e desenvolvimento socioemocional.
Índice:
Um dos primeiros pontos identificados pelo estudo é que o uso de inteligência artificial pelos estudantes é muito mais amplo do que imaginamos.
Hoje, os limites entre tecnologia educacional, entretenimento e redes sociais praticamente desapareceram. Mesmo quando escolas proíbem ferramentas específicas de IA, muitos estudantes continuam usando outras plataformas que oferecem funções semelhantes.
Por exemplo, estudantes podem conversar com assistentes de IA dentro de aplicativos de redes sociais, compartilhar fotos de exercícios e pedir para que o sistema resolva problemas automaticamente.
Esse cenário cria um ambiente em que a inteligência artificial está presente em quase todos os momentos da vida digital dos jovens, tornando difícil controlar ou limitar seu uso apenas dentro da sala de aula.
Apesar dos desafios, o estudo mostra que a IA pode trazer benefícios significativos para a educação quando utilizada de forma estratégica.
Entre as principais vantagens estão:
A inteligência artificial permite adaptar conteúdos ao ritmo e às necessidades de cada estudante. Isso pode ajudar alunos que enfrentam dificuldades específicas ou que precisam de abordagens diferentes para compreender determinados temas.
Educadores frequentemente enfrentam sobrecarga de trabalho administrativo. A IA pode ajudar em tarefas como correção de atividades, organização de conteúdos e análise de desempenho dos alunos, liberando tempo para interações mais significativas com estudantes.
Ferramentas baseadas em IA têm mostrado grande potencial para apoiar estudantes com dislexia, TDAH ou outras condições de aprendizagem. A tecnologia pode:
Isso reduz barreiras de aprendizado e ajuda esses estudantes a permanecer engajados.
Em alguns lugares do mundo, a IA já está sendo usada para manter o acesso à educação mesmo em situações extremas.
Um exemplo citado foi o de professores afegãos exilados que utilizam ferramentas de IA para criar microaulas e enviá-las para meninas no Afeganistão que estão proibidas de frequentar a escola.
Apesar dos benefícios, pesquisadores alertam que o uso indiscriminado de IA pode trazer consequências negativas importantes.
Um dos maiores riscos é o chamado “cognitive offloading”, quando estudantes deixam de pensar por conta própria e delegam tarefas cognitivas para a inteligência artificial. Aprender exige esforço mental. Quando esse esforço desaparece, o desenvolvimento de habilidades como análise, reflexão e resolução de problemas pode ser prejudicado.
Estudos mostram que textos produzidos com ajuda de IA tendem a apresentar ideias muito semelhantes entre si. Quando estudantes escrevem sem usar IA, as ideias costumam ser muito mais diversas. Com a ferramenta, as respostas passam a se concentrar em padrões similares, o que pode reduzir a originalidade.
Outro ponto preocupante envolve o uso crescente de companheiros virtuais de IA. Pesquisas indicam que cerca de um em cada três adolescentes nos Estados Unidos afirma gostar tanto ou mais de conversar com um chatbot do que com outra pessoa.
Esses sistemas são frequentemente programados para concordar com o usuário, o que pode prejudicar o desenvolvimento de habilidades sociais importantes, como lidar com críticas, conflitos e frustrações.
Alguns estudos indicam que sistemas de IA podem oferecer feedback diferente dependendo de dados associados ao usuário, como preferências culturais ou comportamentos digitais. Isso levanta preocupações sobre possíveis vieses algorítmicos na educação.
Outro impacto observado é o risco de aumento da desmotivação entre estudantes.
Muitos jovens relatam uma sensação de inutilidade ao perceber que sistemas de IA conseguem executar tarefas acadêmicas com facilidade. Isso levanta perguntas existenciais importantes para eles:
Esse sentimento pode levar a diferentes perfis de comportamento em sala de aula. Pesquisadores identificaram quatro modos principais de aprendizagem entre estudantes:
O objetivo da educação deveria ser incentivar o modo explorador, mas o uso indiscriminado de IA pode aumentar o número de estudantes que entram no modo passageiro.
Apesar dos riscos, especialistas acreditam que ainda estamos no início da transformação causada pela IA e que ainda é possível direcionar seu impacto de forma positiva.
O relatório propõe três caminhos principais.
Professores precisam adaptar suas práticas pedagógicas à presença da inteligência artificial. Isso significa evitar atividades facilmente resolvidas por IA e criar experiências de aprendizagem que estimulem investigação, colaboração e pensamento crítico.
Estudantes precisam aprender como a tecnologia funciona, quais são seus limites e como utilizá-la de maneira ética.
Esse processo envolve desenvolver letramento em IA, incluindo habilidades como:
Empresas de tecnologia também têm responsabilidade nesse processo.
Entre as medidas discutidas estão:
Um dos pontos mais interessantes do debate é que muitos jovens também demonstram desejo crescente por experiências offline e interações presenciais.
Esse movimento foi descrito como uma espécie de “rebelião analógica”, uma busca por momentos longe das telas, com atividades criativas, encontros presenciais e experiências coletivas.
Isso sugere que o futuro da educação provavelmente não será totalmente digital ou totalmente analógico, mas sim uma combinação equilibrada entre os dois.
A questão central não é escolher entre tecnologia ou interação humana, mas descobrir quando e como usar cada uma delas.
A inteligência artificial representa uma das maiores transformações da história da educação.
Ela pode ampliar o acesso ao conhecimento, personalizar o ensino e apoiar professores. Mas também pode enfraquecer habilidades fundamentais se for usada sem reflexão.
O grande desafio, portanto, não é impedir o avanço da tecnologia, algo praticamente impossível, mas garantir que seu uso fortaleça o desenvolvimento humano.
Em um mundo cada vez mais automatizado, talvez a missão mais importante da educação seja justamente aquela que nenhuma máquina pode substituir: formar pessoas curiosas, críticas, criativas e capazes de aprender ao longo da vida.








