SXSW 2026: Por que evitar conversas difíceis no trabalho pode destruir a cultura da empresa

No SXSW, especialistas discutem como a IA está transformando tarefas, carreiras e o próprio conceito de trabalho.

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15 de Março de 2026
Leitura de 8 min
No SXSW 2026, um dos debates mais provocativos sobre inteligência artificial e carreira trouxe uma pergunta que tem inquietado profissionais em todo o mundo: seu emprego ainda vai existir nos próximos cinco anos?
O painel “Will Your Job Still Exist in Five Years? Redesigning Work in the Age of AI”, apresentado pela futurista do trabalho Michelle Schneider, propôs uma mudança radical de perspectiva. Segundo ela, a questão mais importante não é se os empregos vão desaparecer.
A pergunta correta é outra: como o trabalho será redesenhado na era da inteligência artificial?
Durante a keynote, Schneider, que lidera pesquisas sobre transformação do trabalho na Singularity University e na Signal & Cipher, argumentou que estamos no início de uma mudança estrutural na forma como organizamos tarefas, equipes e carreiras. E, ao contrário do que muitos imaginam, essa transformação não é apenas tecnológica. Ela é organizacional, econômica e até identitária.
Índice:
Nos últimos anos, grandes empresas de tecnologia anunciaram demissões em massa. Companhias como Amazon, Microsoft e Salesforce reduziram suas equipes em cerca de 50 mil posições. À primeira vista, muitos associaram essas demissões diretamente à inteligência artificial.
Mas a realidade é mais complexa. Na maioria dos casos, os cortes foram justificados por fatores como:
Ou seja, as empresas estão se reorganizando para um mundo com IA, mas ainda não estamos vendo substituições massivas de trabalhadores por tecnologia. Segundo Schneider, a mudança real será mais profunda e mais gradual.
Embora o impacto ainda não seja generalizado, alguns sinais começam a surgir em um ponto específico do mercado de trabalho: os empregos de entrada. Um estudo conhecido como “Canary in the Coal Mine”, expressão que remete aos canários usados em minas para detectar gases tóxicos, sugere que essas funções podem ser o primeiro indicador da transformação.
Os dados mostram:
Isso significa que muitos jovens com diploma estão trabalhando em funções abaixo da sua qualificação. A explicação está no tipo de tarefas desses empregos iniciais. Muitas dessas funções envolvem atividades como pesquisa, análise básica de dados, produção de relatórios, redação inicial de conteúdos, atendimento e suporte simples. E essas são justamente áreas onde a inteligência artificial já apresenta desempenho elevado.
Mesmo com o avanço acelerado da inteligência artificial, um dado chama atenção. A produtividade dos Estados Unidos cresce cerca de 1,3% ao ano, praticamente igual à média dos últimos quinze anos.
Se a IA realmente representa uma revolução tecnológica, por que esse impacto ainda não aparece com força na economia? A resposta pode estar em um paralelo histórico.
Michelle Schneider comparou o momento atual da IA com o início da eletrificação das fábricas no final do século XIX. A primeira usina elétrica foi criada em 1882, mas o grande salto de produtividade industrial só aconteceu décadas depois. O motivo é simples: instalar eletricidade não era suficiente.
As fábricas precisaram ser completamente redesenhadas. Antes da eletricidade, as fábricas funcionavam com uma grande máquina central que distribuía energia por correias mecânicas. Com a eletrificação, foi possível criar máquinas independentes, novos layouts de fábrica e novas funções de trabalho.
Esse processo levou décadas para transformar a economia. O mesmo está acontecendo com a inteligência artificial. A tecnologia surge primeiro. O redesenho do sistema de trabalho vem depois.
Outro ponto central da palestra foi uma ideia simples da economia do trabalho: empregos são bundles of tasks (conjuntos de tarefas). Um advogado, por exemplo, não realiza apenas uma atividade. Seu trabalho inclui várias funções diferentes:
Com a inteligência artificial, o que está mudando não é necessariamente o emprego inteiro. O que muda é a composição das tarefas dentro desse trabalho. Algumas tarefas serão automatizadas, enquanto outras continuarão humanas. E novas atividades surgirão para complementar as capacidades da tecnologia.
Segundo Schneider, a transformação que estamos vivendo não é simplesmente uma disputa entre humanos e máquinas. O que está acontecendo é uma reorganização profunda do trabalho.
Em vez de substituir pessoas, a inteligência artificial está mudando como as tarefas são distribuídas entre humanos e sistemas inteligentes. Isso significa que o futuro do trabalho será definido por novas formas de colaboração entre pessoas e IA.
Uma das mudanças mais significativas diz respeito à forma como os profissionais utilizam seu tempo. Hoje, em muitas profissões, a maior parte do tempo é dedicada à execução. Planejamento e pensamento estratégico ocupam apenas uma pequena parcela da rotina. No futuro, essa lógica pode se inverter. A previsão apresentada sugere um cenário em que:
A execução será realizada por agentes de IA. Nesse modelo, cada profissional passa a atuar como o gestor de uma equipe de sistemas inteligentes, responsável por orientar, supervisionar e interpretar resultados.
Durante grande parte do século XX, o mercado valorizou carreiras baseadas em especialização profunda. Era o modelo das carreiras em formato “I” ou “T”: domínio técnico profundo em uma área específica. A inteligência artificial muda essa dinâmica.
Com o suporte de ferramentas avançadas, um profissional pode atuar em múltiplos campos ao mesmo tempo. Schneider descreve esse novo perfil como creative generalist. Esses profissionais se destacam por:
Segundo ela, especialistas construíram o século XX. Generalistas criativos podem construir o século XXI. E a habilidade que sustenta esse modelo é simples: curiosidade.
Outra mudança estrutural discutida no painel envolve o próprio conceito de carreira. Durante décadas, o modelo dominante era claro: um emprego, uma empresa e uma trajetória linear. Esse modelo está sendo substituído por algo mais flexível.
Nos Estados Unidos, cerca de 30% da força de trabalho já atua como freelancer. A projeção é que esse número chegue a 50% até 2027. Entre a Geração Z, cerca de 60% a 70% já possui um side hustle, ou projeto paralelo que gera renda. Esse novo modelo é conhecido como portfolio career, uma carreira formada por múltiplos projetos simultâneos.
As empresas também estão mudando a forma como organizam suas equipes. Historicamente, a força de trabalho era composta por três grupos principais:
Agora surge um novo modelo organizacional chamado blended workforce. Nesse formato, a estrutura pode se aproximar de algo como:
Essa combinação cria organizações muito mais flexíveis e adaptáveis.
Um formato profissional que cresce rapidamente nesse cenário é o fractional work. Nesse modelo, um especialista trabalha parcialmente para várias empresas ao mesmo tempo. Exemplos incluem:
Esse modelo permite que empresas tenham acesso a talentos de alto nível sem precisar contratá-los em tempo integral.
Michelle Schneider também compartilhou uma experiência pessoal para ilustrar essa mudança. Durante mais de vinte anos, ela trabalhou em grandes empresas de tecnologia, incluindo Google, LinkedIn e TikTok. Quando perguntavam o que ela fazia, a resposta era simples: “Eu trabalho no Google.”
Essa frase definia identidade, status e pertencimento. Mas após enfrentar problemas de saúde, ela decidiu deixar o emprego sem ter um plano definido. Durante o período seguinte, tirou um sabático, estudou futurismo e explorou novos caminhos, incluindo uma viagem ao Everest Base Camp. Essa experiência a levou a repensar completamente a relação entre identidade e trabalho.
Talvez o impacto mais profundo da inteligência artificial no trabalho não seja tecnológico. É identitário. Durante décadas, nossa identidade profissional foi definida por cargos e empresas. Agora, essa lógica está mudando.
A pergunta deixa de ser: “Qual é o seu emprego?” E passa a ser: “Em quais projetos você está trabalhando?”
Ao final do painel, Schneider deixou claro que existem dois caminhos possíveis. O primeiro é continuar dentro das estruturas corporativas tradicionais, desenvolvendo novas competências como:
O segundo é criar novas formas de trabalho fora desse modelo, explorando caminhos como: consultoria, creator economy, projetos independentes e empreendedorismo. Mas, independentemente do caminho escolhido, uma coisa parece certa.
A inteligência artificial não vai substituir pessoas. Ela vai substituir tarefas. E, ao fazer isso, pode transformar cada profissional no diretor do próprio trabalho. A pergunta final deixada no palco do SXSW resume bem o momento que estamos vivendo:
Você vai ajudar a desenhar o novo trabalho ou esperar que alguém desenhe por você?
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