Rede de contatos não é plano de emergência

Entre performance e poder, existe um espaço silencioso onde o jogo muda e são os critérios invisíveis, não a competência, que ainda definem ...

Headhunter e Sócia da Avante Consulting desde 2014, ja conduziu mais de 500 processos de consultoria C- Level, Middle e Top Management, hoje também orienta executivos que buscam crescer com mais clareza e estratégia.
27 de Março de 2026
Leitura de 2 min
O que acontece com uma executiva 40+ pronta para dar o próximo passo — e assumir uma posição de C-level?
Ao longo dos meus últimos 12 anos como Headhunter, com o compromisso de construir shortlists diversas para meus clientes, comecei a observar um padrão recorrente — e ainda pouco discutido.
Existe um “vale invisível” entre a diretoria e o C-level.
Um espaço onde muitas mulheres altamente qualificadas, com trajetórias consistentes e resultados comprovados, simplesmente deixam de aparecer.
Esse dado se torna ainda mais evidente quando olhamos para o topo: entre os CEOs mais bem pagos do Brasil, a presença feminina ainda é exceção.
A pergunta que surge não é nova — mas talvez ainda não esteja sendo feita da forma certa: o que acontece nesse intervalo?
Obviamente não se trata de falta de preparo. Essas executivas já demonstraram capacidade técnica, consistência de entrega e habilidade de gestão. Elas chegaram até ali seguindo e dominando as regras do jogo.
O ponto é que, nesse estágio da carreira, o jogo muda.
A progressão deixa de ser guiada majoritariamente por performance objetiva e passa a considerar dimensões menos explícitas — e, muitas vezes, menos acessíveis.
Influência passa a pesar mais do que entrega, exposição e comparação se tornam inevitáveis. E, critérios informais começam a definir quem avança.
Ao mesmo tempo, há uma sobreposição com um momento de vida igualmente complexo.
É a fase em que filhos crescem, novas responsabilidades pessoais emergem e o próprio corpo sinaliza mudanças. Ainda assim, essas mulheres seguem performando muitas vezes em níveis comparáveis ou superiores aos de seus pares.
O que observo, portanto, não é uma lacuna de competência. Mas um desalinhamento entre o modelo de liderança vigente e as trajetórias reais dessas profissionais.
Esse “vale” não é necessariamente visível. Ele não aparece em descrições de cargo, nem em avaliações formais de desempenho. Mas se manifesta nas entrelinhas: nas escolhas, nas percepções, nos critérios não ditos.
E, justamente por isso, é difícil de nomear e mais ainda de atravessar.
Nos últimos anos, tenho me dedicado a observar, compreender e trabalhar de perto esse ponto específico da jornada executiva.
Porque, na prática, não se trata de um salto técnico. Trata-se de um reposicionamento.
Um movimento que envolve leitura de contexto, construção de influência e ocupação de espaço — muitas vezes em ambientes que ainda não foram desenhados para incluir plenamente essas trajetórias.
Talvez, então, a questão não seja mais se essas mulheres estão prontas.
Mas o que, de fato, está sendo considerado — formal ou informalmente — para que avancem.
E, principalmente, o que ainda precisa ser revisto para que esse “vale invisível” deixe de ser um ponto de estagnação e passe a ser apenas mais uma etapa de desenvolvimento na trajetória de liderança.








