Levantamento de Necessidades de Treinamento (LNT) em 5 etapas

Em um mundo onde a IA assume o operacional e o tático, o líder deixa de ser um executor para se tornar um arquiteto de adaptabilidade. O des...

Head de Total Rewards, People Ops e Analytics na Petlove, com passagens por iFood e Booking, é referência em arquitetura de remuneração e eficiência operacional, liderando iniciativas que transformam complexidade em soluções escaláveis.
8 de Abril de 2026
Leitura de 9 min
Durante décadas, liderar bem significava ter o plano certo, comunicá-lo com clareza e garantir que a equipe o executasse. O líder era o detentor do mapa. O time, o executor do trajeto. Esse modelo funcionou em ambientes previsíveis. O problema é que o ambiente previsível acabou.
Em 2026, a confiança das lideranças no crescimento de suas empresas atingiu um patamar crítico: segundo a PwC, o otimismo em relação às receitas chegou ao nível mais baixo em cinco anos, com apenas 30% das lideranças expressando segurança para os próximos meses. Nesse cenário, manter um modelo de gestão baseado em controle e certezas é não apenas ineficaz, é perigoso! A pergunta que se impõe não é mais “como eu executo melhor o plano que tenho?” mas sim: como eu lidero pessoas em um ambiente que muda mais rápido do que nossa capacidade de adaptação?
Índice:
Uma das ilusões mais persistentes do momento é a de que a solução para a sobrecarga e a complexidade é adicionar mais ferramentas. Mais plataformas, mais dashboards, mais automações, mais camadas de processo. Como se o antídoto para o excesso fosse mais.
Os dados mostram o oposto. Uma nova pesquisa publicada pela Harvard Business Review revela que as ferramentas de IA não reduzem o trabalho, elas o intensificam: os funcionários passaram a trabalhar em ritmo mais acelerado, assumiram um escopo mais amplo de tarefas e estenderam o trabalho para mais horas do dia, muitas vezes sem que lhes fosse solicitado. Essas mudanças podem ser insustentáveis, levando ao aumento da carga de trabalho, fadiga cognitiva, esgotamento e enfraquecimento da tomada de decisões.
O relatório da Gartner aponta que 91% dos líderes de TI e CIOs admitem dedicar pouco ou nenhum tempo para monitorar os efeitos colaterais comportamentais do uso de IA. Fala-se inclusive em atrofia cognitiva, a perda progressiva da capacidade de pensamento crítico pelo excesso de delegação às máquinas. A EY mostra que 8 em cada 10 empresas já reestruturaram suas operações por causa da IA, e 74% afirmam que ainda precisarão mudar mais. Mas a velocidade da tecnologia não combina com a velocidade humana. Reorganizações rápidas geram fadiga, perda de foco, resistência passiva e queda de motivação. A IA exige velocidade. A adaptação humana exige estabilidade. Lidar com essa assimetria é o novo dever central da liderança.
O “Future of Jobs Report 2025” do Fórum Econômico Mundial é direto: a nova era do trabalho exige líderes ágeis, empáticos e capazes de navegar em um ambiente cada vez mais complexo e digital, e uma das competências mais críticas para esses profissionais é justamente a capacidade de aprender e mudar continuamente, dado que a velocidade com que novas tecnologias surgem e se tornam obsoletas exige atualização permanente. Mas aprender continuamente não é apenas consumir conteúdo. É desenvolver competências que transformam a forma de liderar. Seis delas se destacam como as mais urgentes.
Um dos equívocos mais comuns é tratar agilidade e estabilidade como opostos. Times ágeis são times que têm clareza de propósito suficiente para se reorganizar rápido quando necessário.
Segundo o relatório “2025 Global Human Capital Trends” da Deloitte, 85% dos profissionais afirmam que as organizações precisam criar maneiras mais ágeis de organizar o trabalho para se adaptarem rapidamente às mudanças. Na prática, a liderança estratégica deve promover agilidade, desburocratizando processos, e simultaneamente garantir estabilidade, oferecendo clareza de propósito, transparência nas mudanças e suporte emocional, para evitar que a velocidade se transforme em caos ou sobrecarga.
Há ainda uma mudança cultural que muitos líderes ainda resistem em nomear: o tempo de permanência nas organizações encurtou, e isso não vai reverter. Times ágeis não criam raízes de décadas na mesma empresa. Esse comportamento, que por muito tempo foi sinal de lealdade e estabilidade, perdeu sentido em um mercado onde a velocidade de transformação das funções, das tecnologias e dos modelos de negócio supera qualquer ciclo de fidelidade institucional. Segundo a pesquisa ‘2025 Gen Z and Millennial Survey’ da Deloitte, apenas 6% dos talentos da Geração Z têm como objetivo de carreira alcançar uma posição de liderança dentro de uma única organização. O líder que ainda projeta retenção com base no modelo antigo de vínculo eterno está planejando para uma realidade que já não existe. O desafio se desloca: não é mais “como faço essa pessoa ficar para sempre?”, mas sim “como crio um ambiente onde ela entrega o máximo enquanto está aqui e seja como embaixadora da cultura quando sair?” Times ágeis de verdade são construídos sobre propósito e aprendizado contínuo, não sobre permanência compulsória.
Decisões continuam sendo para humanos, a IA expõe o fator humano. Uma pesquisa da McKinsey que ouviu quase 13 mil trabalhadores de 16 indústrias revela que, nesse novo cenário, os talentos sentem que precisam mais de competências cognitivas e socioemocionais do que de habilidades tecnológicas. Além disso, para esses profissionais, flexibilidade, significado e relacionamentos ganham importância em detrimento do salário nas principais motivações para permanecer na empresa.
O líder que entende isso não comunica mudanças tecnológicas como ameaça. Comunica como ampliação. A pergunta que deve guiar qualquer implementação de nova ferramenta ou processo é: isso vai liberar minha equipe para fazer mais do que é genuinamente humano, ou vai apenas adicionar mais uma tarefa? Como sintetiza a Randstad: a IA pode otimizar um fluxo de trabalho, mas não consegue construir lealdade, inspirar comprometimento por um propósito comum ou mediar conflitos com a sutileza que a empatia exige.
O líder do futuro não é o que tem todas as respostas. É o que tem os melhores critérios e consegue transferi-los para o time. Na prática, isso significa que o líder deve ser capaz de deixar claro para a equipe: quais são os valores que não se negociam, o que constitui uma boa decisão naquele contexto e quais comportamentos geram resultado naquela cultura específica. Quando o time tem esses critérios internalizados, opera com autonomia real, sem depender de validação constante e sem perder coerência.
Segundo a PwC, trabalhadores que confiam plenamente em seus gestores diretos são 72% mais motivados. Os que confiam na liderança sênior são 63% mais motivados que os que não confiam. Confiança, nesse caso, não é subjetiva. É o resultado de critérios claros, consistência de processo e transparência.
Simplificar não é natural para a maioria das organizações. O instinto de quem lidera tende a ser o oposto: diante de um problema, adiciona-se um processo novo; diante de uma lacuna, cria-se uma camada extra de controle; diante da pressão por inovação, empilha-se mais uma ferramenta. O resultado é uma organização que cresce em complexidade interna enquanto perde velocidade e clareza para agir no mercado.
Liderar em ambientes complexos exige gerenciar polaridades que antes pareciam inconciliáveis e isso inclui a tensão entre o que precisa ser preservado e o que precisa ser eliminado. A experimentação precisa ser tão valorizada quanto a execução disciplinada, e a disposição de romper com velhas mentalidades é o que separa as empresas que prosperam das que ficam para trás.
O líder que desenvolve a obsessão por simplificar faz perguntas que a maioria evita: por que esse processo existe? Quem usa esse relatório? Essa reunião semanal ainda gera valor real? Não por acaso, entre os 14 princípios de liderança da Amazon, um dos mais emblemáticos é “Inventar e Simplificar” a expectativa de que líderes não apenas inovem, mas encontrem maneiras de tornar processos e soluções mais simples, mesmo que isso exija desaprender formas anteriores de trabalhar.
Simplificar, nesse sentido, não é minimizar. É eliminar o que consome energia sem gerar resultado, para que o que realmente importa ganhe espaço, nas agendas, nos sistemas e, principalmente, na mente das equipes.
Há um dilema que persiste nas organizações: os perfis que dominam a execução tendem a resistir à inovação, enquanto os perfis criativos frequentemente negligenciam o processo. Quando essa tensão não é gerenciada, ela fragmenta os times, criando de um lado guardiões do status quo e do outro agentes de mudança que ninguém consegue seguir.
O líder do futuro precisa desenvolver o que se chama de ambidestria mental, a capacidade de transitar com naturalidade entre o pensamento processual e o pensamento criativo, sem sacrificar um pelo outro.
A liderança ambidestra é uma filosofia de gestão que combina eficiência e criatividade com o objetivo de criar um ambiente profissional em constante inovação. Ela equilibra dois movimentos distintos: a exploração, busca por inovações, novas ideias, experimentação e disposição para correr riscos; e a eficiência operacional, foco na otimização e na excelência das operações já existentes. Um líder ambidestro é capaz de atuar simultaneamente em ambas as frentes, criando um ambiente em que inovação e eficiência coexistem e se fortalecem mutuamente.
Em momentos de incerteza, a ambidestria eficaz exige foco em três pontos simultâneos: insight, a criatividade para enxergar o que outros não enxergam; comprometimento, o engajamento para sustentar o esforço no tempo; e execução, os processos organizacionais que transformam ideia em resultado concreto. O líder que consegue cultivar esses três elementos no próprio time não apenas entrega performance no presente, constrói a organização que terá capacidade de se reinventar.
Há uma diferença fundamental entre ter horas disponíveis e ter clareza e energia cognitiva para usá-las bem. Times que operam em alta fricção, com processos mal desenhados, comunicação fragmentada, excesso de ferramentas e reuniões sem propósito, não têm espaço mental para inovar, adaptar e construir.
A capacidade de se reinventar deixou de ser um diferencial para se tornar uma questão de sobrevivência. Liderar mudanças não é mais uma tarefa técnica, mas a base de uma estratégia de negócio que busca transformar a incerteza em oportunidade. A pergunta que cada líder deveria fazer não é “o que meu time precisa aprender para o que vem por aí?”, mas sim: Que condições estou criando agora para que meu time consiga pensar, adaptar e construir com clareza, mesmo no meio da mudança?
O papel da liderança hoje é inspirar pessoas a crescerem juntas, construindo culturas organizacionais que valorizam o aprendizado, a inovação e a confiança. Não como discurso. Como prática diária. O líder que entender isso, e agir a partir disso, não vai apenas sobreviver às reconfigurações do trabalho. Vai ser quem as lidera.
Referências
Gallup • State of the Global Workplace 2025 • Deloitte • Global Human Capital Trends 2025 • McKinsey • Fórum Econômico Mundial (Future of Jobs Report 2025) • PwC (Global Workplace Hopes and Fears 2025) • EY • Harvard Business Review • Gartner • Randstad • FGV EAESP





