Pesquisa de engajamento: do diagnóstico ao plano de ação

Em pouquíssimos anos, medicamentos como Ozempic e Mounjaro saíram do consultório para a mesa de decisão de benefícios, e o que tem acontecid...

Letícia Defilippo é médica, responsável técnica da Pipo Saúde. Especialista em Clínica Médica e certificada em Medicina do Estilo de Vida, se dedica a ajudar pessoas e empresas a construírem saúde de forma consciente e sustentável.
16 de Setembro de 2026
Leitura de 5 min
O ano era 2023, e se você perguntasse aos americanos qual seria "o" benefício do momento, muitos arriscariam: as canetas de GLP-1. Ozempic, Wegovy e, mais recentemente, o Mounjaro, nomes que viraram itens de desejo, se tornaram, quase da noite pro dia, pauta para a diretoria e RH.
Faz sentido, pelo menos à primeira vista. Um medicamento com eficácia comprovada para emagrecimento, em uma população onde a obesidade e outras doenças crônicas atreladas a ela só crescem. Cobrir o remédio parece uma jogada óbvia: menos adoecimento, menos afastamento, menos custo futuro. Simples assim, né?
Só que não. Ou pelo menos nem tão simples assim.
É inegável que esses medicamentos mudaram a evolução da doença. Eu mesma vi o impacto entre meus pacientes. Pela primeira vez em uma década, a obesidade vem, finalmente, desacelerando. Coincidência ou não, foi exatamente nesse período que os análogos de GLP-1 se popularizaram.

As famosas canetinhas viraram rapidamente item esperado de um pacote de benefícios competitivo, principalmente entre os mais jovens. Segundo uma avaliação da ZipHealth, 47% dos profissionais da Geração Z consideram que a cobertura de GLP-1 influencia a escolha entre duas vagas semelhantes. Outra pesquisa, da NFP (2026 U.S. Benefits Trend Report), mostrou que 29% dos funcionários trocariam de emprego para ter acesso a elas.
Aqui no Brasil, o mesmo movimento já vem se formando, e desde março ganhou um belo empurrão: a patente da semaglutida (o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy) caiu, e a produção nacional dos análogos está em andamento. Isso significa um medicamento mais barato e mais acessível.
O interesse também cresce porque a obesidade passou a afetar diretamente o ambiente de trabalho. Com 62% dos brasileiros acima do peso, o tema impacta em absenteísmo, produtividade, sinistralidade e qualidade de vida.
O Brasil está exatamente onde os Estados Unidos estavam há três anos. A diferença é que, através da experiência deles, podemos antecipar o que vem depois.
O gasto das empresas americanas com GLP-1 saltou de 6,9% para 11,4% de todo o orçamento anual com sinistros em apenas três anos. Não foi um aumento suave, foi praticamente dobrar a fatia que um único tipo de medicamento consome do orçamento de saúde de uma empresa.
O resultado já apareceu: em 2026, 6% das companhias com 500 ou mais funcionários já cortaram a cobertura de GLP-1. Outras 5% devem fazer o mesmo em 2027.
O problema nunca foi sobre eficácia, mas estrutura de custo.
Um estudo recente do NBER (Wing et al., 2026) reforça exatamente esse ponto. Analisando milhares de pacientes com plano de saúde nos EUA, acompanhados por até cinco anos, os pesquisadores encontraram que o uso de GLP-1 não reduz o gasto total em saúde. Pelo contrário, aumenta!
Ou seja, mesmo com todos os benefícios clínicos comprovados, o remédio não "se paga" no curto ou médio prazo. Para quem já enxerga o plano de saúde como linha de custo apertada, entender por que isso acontece muda a forma de decidir. E aqui, precisamos falar de alguns pontos:
Primeiro, o preço: o tratamento injetável, mesmo com os genéricos, ainda custa caro e é de uso contínuo, diferente de uma intervenção pontual como, por exemplo, uma cirurgia bariátrica.
Segundo, a adesão é baixa e instável: a proporção de pacientes em uso de GLP-1 despenca já nos primeiros meses, e metade dos pacientes já não está mais em tratamento efetivo após um ano. Com isso, a recidiva do peso perdido é praticamente certa.
Terceiro, o efeito não se sustenta sem o medicamento (e nem sem mudanças comportamentais): O estudo STEP 1 mostrou reganho de cerca de dois terços do peso perdido em um ano após a interrupção. Uma revisão publicada no BMJ em 2026 encontrou que, após a parada do medicamento, há um reganho quase quatro vezes mais rápido do que o observado após programas que envolvem dieta e exercício físico.
E o quarto ponto: mesmo enquanto o paciente permanece em tratamento, o custo não se limita ao preço da caneta: o gasto ambulatorial sobe durante todo o uso, com consultas de titulação de dose, acompanhamento e manejo de efeitos colaterais. O remédio não substitui o cuidado médico, pelo contrário, acaba gerando demanda adicional por ele.
Me arrisco a dizer que um dos erros que algumas empresas americanas cometeram foi tratar o benefício (nesse caso, o medicamento) como se ele fosse a solução inteira.
O próprio reganho de peso após a interrupção do GLP-1 já mostra isso: ele acontece mais rápido do que o observado após programas de alimentação e atividade física, o retrato perfeito de um remédio tentando fazer sozinho o trabalho que só se sustenta com mudança de hábito. Pela nossa pesquisa na Pipo de “Saúde e Bem-estar dos Colaboradores de 2026”, sabemos o tamanho do desafio que isso representa: hoje, apenas 13% dos profissionais praticam o autocuidado mínimo, que envolve alimentação equilibrada e atividade física regular, e um terço ainda é sedentário. Como querer que o medicamento se sustente nesse cenário?

É aí que entra o papel da empresa, que tem um poder gigantesco de influenciar o estilo de vida de quem trabalha nela. Não é apenas oferecer um benefício isolado, mas também construir a cultura ao redor dele: entender a população, saber o que realmente faz sentido pra ela, e não só fazer a gestão de quem já está em tratamento, mas também incentivar a mudança de hábitos para aqueles que ainda nem precisam de remédio.
E para quem já está em uso das tais canetinhas faz toda diferença ter suporte e acompanhamento estruturado quando fizer sentido, para que o colaborador não fique sozinho na jornada e aquele gasto ambulatorial não dispare no processo.
Escrevi sobre GLP-1, mas isso não é apenas sobre os GLP-1. É sobre ainda querer tratar benefícios como item de prateleira em vez de parte de um sistema, é sobre decidir pela pressão do mercado, pelo hype, e não pelo que os colaboradores realmente precisam. A diferença entre ser pagadora de conta médica e ser promotora de saúde não está no remédio ou benefício escolhido. Está na forma como se decide e se faz um bom uso dele.




